quarta-feira, 4 de junho de 2025

O Banco e a Sombra

 O Banco e a Sombra

Sentou-se, enfim, no banco da alameda,
o velho de casaco desbotado.
As árvores tremiam como prece,
e o céu, de chumbo, vinha carregado.

Fazia frio. Mas não um frio rude —
um frio que recorda e que consola.
A brisa parecia voz antiga,
e em seus ouvidos algo se desola.

— “Estás só?”, soou atrás, bem suavemente.
Ele sorriu: — “Sempre estive, creio eu.”
Uma mulher sentou-se, calma e pálida,
com olhos cinza e rosto como véu.

— “Sou a Solidão”, disse sem lamento.
“Mas não temas — vim sem intenção cruel.”
— “Tu já moravas dentro dos meus passos.”
— “Sim,” ela disse, “mas nunca fui fel.”

Conversaram do tempo e das saudades,
dos sonhos que não vieram, das vontades,
de amores que passaram como nuvens
e do silêncio entre as verdades.

Ela ouviu tudo — sem pressa, sem pressões,
como as árvores escutam as estações.
E ele, tão cansado de ser forte,
deu-se a ela como quem aceita a sorte.

Fechou os olhos. O sol já se escondia.
No peito, o último suspiro era um canto.
Ela, então, beijou-lhe a fronte fria
e deixou-o adormecer sobre o banco.

Ninguém percebeu. Ninguém estranhou.
A cidade seguiu, em sua pressa vão.
Mas ali jaz um homem que encontrou,
no fim, a paz no colo da Solidão.

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