O Arquivista das Rosas
A primeira vez que encontrou o caderno foi numa sala trancada da biblioteca do antigo Instituto Hebraico de Estudos Históricos, onde era arquivista adjunto, função que ele mesmo duvidava ter escolhido. Chovia em Viena, e as goteiras pingavam sobre os arquivos com a precisão de um relógio sem propósito. O caderno, encadernado em couro artificial e com letras em eslavo distorcidas, parecia ter sido intencionalmente esquecido entre tratados rabínicos e panfletos sobre a ascensão do socialismo austro-húngaro.
O judeu — chamavam-no apenas assim, pois seu sobrenome se perdera entre emigrações e cartórios desmantelados — passava os dias tentando cruzar documentos com rumores, como se pudesse decifrar a mecânica secreta que sustentava o antissemitismo europeu. Os “Protocolos dos Sábios de Sião” o perseguiam. Falsificação ou revelação? Seu ceticismo natural entrava em conflito com uma voz surda dentro dele, que dizia: mesmo o falso, quando repetido o bastante, torna-se verdade para os que odeiam.
Foi nessa época que conheceu uma jovem — Magda, dizia chamar-se — que aparecia às quartas-feiras com os dedos cheios de pequenos curativos e olhos que evitavam as esquinas. Afirmava estar fugindo de ratos. Não dos animais, dizia ela, mas de ratos com nomes e promessas. “Eles me seguem”, cochichava. “Me esperam atrás das pilastras. Roem meus livros, minhas cartas, minhas lembranças.”
Ele não sabia se acreditava nela, mas em seus olhos havia a mesma pergunta que ele encontrava nos seus próprios: “Se enlouquecermos, será culpa nossa ou daquilo que tentamos compreender?”
Ao mesmo tempo, um homem silencioso começou a visitar o jardim abandonado do Instituto. Carregava uma cesta e colhia as rosas mortas com uma delicadeza quase absurda. Quando o judeu finalmente lhe perguntou por quê, o homem respondeu: “Porque só nas coisas que murcham há verdade.” Depois calou-se, como se essa frase lhe tivesse custado a última parte da memória. Com o tempo, o judeu descobriu que ele era um refugiado da Galícia, um antigo violinista cujo nome desaparecera dos registros. Vivia num asilo e acreditava que era jardineiro.
A investigação sobre os Protocolos o levava a becos estranhos. Códigos inventados. Depoimentos contraditórios. O judeu começou a suspeitar que o documento não fora escrito para ser verdadeiro, mas para substituir a verdade — como um espelho que reflete, mas não ilumina.
Uma noite, Magda desapareceu. No lugar onde costumava sentar-se, o judeu encontrou apenas uma folha rasgada, escrita à mão: “Os ratos entraram na biblioteca. Agora leem.”
Dias depois, o homem das rosas não veio. E no jardim, sobre a terra negra, alguém havia deixado uma única rosa vermelha — mas não havia roseiras no Instituto.
Foi quando o judeu decidiu que precisava queimar o caderno. Mas ao procurar por ele, percebeu que já não lembrava onde o havia escondido. Ou se alguma vez o tivera.
Nenhum comentário:
Postar um comentário