domingo, 1 de junho de 2025

Luz de Última Hora


o menino perdeu a mãe num outono sem folhas e sem nome porque não há estação mais cruel do que aquela que não avisa que vai levar embora o que se ama, e foi assim que ela partiu, sem bilhete, sem gesto, sem volta, restando ao menino apenas o silêncio dos armários e o cheiro do sabão no lençol que ela dobrou pela última vez, e o mundo, ah o mundo, se mostrou então como um lugar de dentes e cacos, com ruas feitas de gritos abafados, com homens que se empurram para entrar no vazio e mulheres que riem com medo de não serem vistas, e o menino viu isso tudo com olhos que não queriam mais ver, e pensou que se a vida era isso — uma fila de perdas, um mercado de ausências, um jogo em que se nasce para perder — então melhor seria calar, melhor seria parar, melhor seria não

mas foi ali, no fundo dessa noite espessa, que ouviu o nome de um homem chamado Jesus, um nome que atravessava o ar como uma vela acesa num túnel de carvão, e não era o nome de um rei, nem de um mágico, nem de um guerreiro, mas de alguém que dizia vinde a mim, e o menino, que nada mais queria vir, veio, sem saber por quê, apenas porque aquela voz não feria, não cobrava, não pesava, era uma voz que dizia teu nome sem erro, e chamava sem pressa, e o menino veio

e foi então que pela primeira vez o mundo não mudou, mas brilhou, pois o mesmo céu escuro agora tinha estrelas, e a mesma dor antiga agora era cicatriz, e a saudade da mãe já não era poço, mas ponte, e o menino entendeu que luz não é o que elimina a sombra, mas o que nos permite atravessá-la, e soube que Jesus não o havia encontrado porque ele fosse bom, mas porque ele estava perdido, e que amar é reconhecer no outro o que o mundo apagou em nós, e que crer é caminhar sabendo que a estrada tem fim, mas que esse fim não é o fim, mas o começo, e o menino sorriu, não porque tudo estava bem, mas porque finalmente sabia que tudo, até a dor, podia ter um porquê

e desde esse dia, caminha, com os pés descalços e o peito aberto, e quando chora, ora, e quando cai, espera, e quando ama, lembra — lembra do nome, do homem, da cruz, da luz.

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