domingo, 1 de junho de 2025

Limões no escuro ou a flor de um seio aberto

 Limões no escuro ou a flor de um seio aberto

Foi numa rua suja, um dia impuro, com o céu feito de chumbo e fumaça de fritura. Nada prometia beleza naquele cenário. E mesmo assim, ela surgiu — como uma fruta no escuro, como uma profecia de carne. Pele morena, morena de verdade, não dessas que o sol pinta, mas daquelas que nascem do barro quente de algum deus antigo e distraído.

Ela me olhou como quem já sabia tudo. Tudo: meu nome, meu medo, minha febre. Sorriu com o canto da boca e me chamou de "anjo bêbado". E eu fui. Fui porque não tinha mais nada que valesse a pena ser evitado. Quando ela encostou a mão no meu peito, o mundo inteiro sumiu, exceto o calor daquele toque. Era o toque de quem não pede licença — e também não pede desculpa.

Disse o nome dela, mas não sei se era verdade. Nomes são véus, rótulos de vidro em potes que já se quebraram. Eu não queria nome. Queria o milagre. Queria o sangue correndo por debaixo daquela pele morena, o mistério daquele corpo moldado pela luz da fome e da dança. Ela era uma canção sem melodia, só ritmo — um batuque de quadris e ombros e olhar que queimava.

E então, sem aviso, levantou a blusa. No meio da rua. Como quem oferece uma flor a um cego. Ali estava: o peito direito, nú como um altar antigo, escuro como a raiz do mundo. Um seio pequeno, mas inteiro, inteiro como um grito contido. E a ponta — ah, a ponta — como uma estrela caída no asfalto.

Chupei aquele seio como quem beija um mistério. Não havia pressa. Nem vergonha. Só fome. Uma fome que não era de carne, era de sentido. Era como se aquele instante corrigisse todos os erros da minha vida. Minha boca ali, no centro do universo, e o mundo em volta se rendendo.

Havia gente em volta. Mas ninguém via. Quando se toca o sagrado, o resto vira fumaça. Era como estar dentro de um poema obsceno escrito por um anjo lunático. Eu, mendigo do acaso, fui escolhido para provar o vinho da eternidade em forma de pele, suor e cheiro de limão.

Porque sim, ela tinha cheiro de limão. Limões frescos, cortados com raiva. Limões no escuro. A acidez perfeita da liberdade. Nunca entendi, mas desde aquele dia, tudo o que me falta tem gosto cítrico. Todo prazer incompleto tem a forma redonda daquele peito.

Depois ela se foi. Como se nunca tivesse existido. Sem adeus, sem drama. Um sumiço limpo, quase divino. E eu fiquei com a boca ainda úmida, a alma desorganizada, e um poema maldito começando a nascer dentro de mim. Nunca mais a vi. Nunca mais precisei ver.

Ela não era uma mulher. Era um portal. Um delírio que Deus sonhou entre dois goles de vinho. Uma flor de seio aberta no meio do caos. E desde então, tudo o que escrevo é só tentativa: de voltar, de entender, de merecer de novo aquele milagre sujo e perfeito.

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