domingo, 1 de junho de 2025

Elegia para um Poema Comido por Traças



Escrevo! Escrevo com o fel dos glóbulos rotos,
Com os nervos em brasa e os ossos em grito,
Faço do verso um espasmo erudito
— E sei que será comido por insetos ignotos!

Ah, sublimes hemácias metafísicas do tédio!
Gerundismos! Conjunções do meu inferno raso!
Escrevo como quem defeca no vácuo
E encaderna o próprio cadáver num armário médio.

Porque tudo apodrece! Até o latim,
E os dicionários de dor que decorei com afeto!
Um poema, quando nasce, já fede do fim
Como um feto abortado num folheto.

Oh traças! Vós sois os verdadeiros editores
Da biblioteca universal do esquecimento!
Com vossas bocas de pó e vossos amores
Por papel carunchado e sofrimento!

Eu que escrevi com vísceras e com febre,
Que mastiguei Dante, Whitman e Pessoa —
Vejo agora: minha obra é sombra leprosa
Na prateleira úmida da biblioteca cega e plebe.

Riam, traças! Mastiguem-me os sonetos!
Façam festim dos meus alexandrinos tristes!
Melhor ser lido por vós — insetos honestos! —
Do que por críticos mortos que fingem que existem!

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