domingo, 1 de junho de 2025

Ele se chamava Saul

 Ele se chamava Saul, e se dizia poeta antes mesmo de saber rimar “casa” com “asa”. Tinha nascido num bairro judeu de Porto Alegre, entre sinagogas discretas, padarias que vendiam pão com gergelim e senhoras que falavam ídiche como se estivessem sempre um pouco gripadas.

Desde cedo, Saul carregava um caderno azul onde rabiscava visões. Não poemas, visões. Sonhava com anjos de fogo, colinas douradas, cidades que surgiam do nada e desapareciam como pão ázimo em Pessach. Os colegas de escola o chamavam de “rabino psicodélico”.

Ele dizia, com solenidade adolescente, que queria ser o William Blake judaico. Lia Blake no original, com dicionário em mãos e fé nos olhos. Citava: “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria ao homem como é, infinito.” Depois fechava o caderno e dizia que a realidade era uma piada mal contada.

Sua mãe, dona Rivka, dizia: “Meu filho, seja poeta, mas também dentista. Poeta com diploma é mais respeitado.” O pai, que vendia tecidos na rua dos Andradas, preferia não comentar. Uma vez apenas disse: “Blake não pagava aluguel.”

Mas Saul não queria pagar aluguel. Queria voar. Escrever versos que curassem as feridas de Exílio e Shoá, que transformassem o chumbo da história em ouro alquímico. Lia Kabbalah, meditava com os olhos fechados e os bolsos vazios. Certa vez jejuou três dias esperando uma epifania. Ganhou uma gastrite.

Um dia, caminhando pela Redenção, viu um homem que parecia um anjo — ou um vendedor de picolé. O homem lhe disse: “Escreve com sangue ou não escrevas.” Saul anotou a frase como se fosse revelação divina. No dia seguinte, cortou o dedo tentando fazer poesia literal. A mãe o levou ao hospital, murmurando orações em hebraico e críticas em português.

Ele publicou um livreto com seus poemas místicos, que chamava “Os Profetas da Rua Ramiro”. Vendeu 37 exemplares, quase todos para parentes. Um rabino reformista o acusou de heresia lírica. Saul respondeu com um soneto em aramaico e uma carta aberta à eternidade.

Mesmo assim, insistia. Sonhava com uma Jerusalém invisível nas calçadas do Bom Fim. Dizia ver querubins entre os fios de luz da AES Sul. Uma vez escreveu que Deus morava dentro de um ônibus da linha 476 e que piscava luzes quando queria dizer “amém”.

Foi convidado para ler seus poemas numa feira literária em São Leopoldo. Leu em voz alta, olhos fechados, mãos erguidas como um Moisés pós-moderno. Houve palmas, duas vaias, um cochilo e uma senhora emocionada que lhe deu um beijo na testa.

Com o tempo, os cabelos ficaram brancos e os poemas mais curtos. Começou a escrever haicais judaicos. Um deles dizia: “Shekiná passou / e eu não tive palavras / apenas silêncio.”

Saul nunca ficou rico, nem famoso. Mas se tornou uma figura conhecida no bairro, o “profeta do Bom Fim”. As crianças o cumprimentavam, os velhos o escutavam, os cachorros o seguiam, talvez pensando que ele cheirava a outro mundo.

Às sextas-feiras, ele acendia velas, mesmo sozinho, e recitava Blake como se fosse parte da liturgia. Acreditava que o Eterno podia ser convocado com poesia, como quem chama um amigo para tomar chá.

Quando morreu — de causas naturais, como convinha a um místico cansado —, encontraram no seu bolso um bilhete: “A verdade é uma rima difícil. Mas ainda tento.”

O rabino do bairro fez um sermão emocionado e declarou: “Era louco, sim. Mas uma loucura sagrada.” Depois recitou, sem entender muito bem, um verso de Blake que Saul sempre citava: “O que hoje é provado, ontem era apenas imaginado.”

E quem passou pela Rua Ramiro naquele dia jura que havia um cheiro estranho no ar — algo entre incenso, tinta de caneta e eternidade.

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