domingo, 1 de junho de 2025

Cântico a Natanael entre os Ramos


Eu o encontrei entre os ramos escuros do cafezal,
onde a luz se filtra como revelação,
e os grãos dormem como olhos santos.
Natanael — nome de profeta,
voz de trovão contido na garganta da terra.
Seus pés pisavam a folha e a sombra como quem caminha
entre mundos.

Seus olhos eram dois poços sem fundo,
onde estrelas iam se afogar com alegria.
E sua pele — negra como a noite antes de Deus dizer "haja luz" —
brilhava com o suor do dia e a eternidade.
Ali, naquele templo sem altar, ajoelhei-me.
Não por submissão, mas por júbilo.

Beijei sua glande como se fosse fruto sagrado,
como se dos seus poros brotasse a ceiva da criação.
Era quente, era vivo, era verbo encarnado.
E em minha boca se cumpriu o cântico que os anjos calaram.
Pois a carne, quando amada, é mais divina que o espírito negado.

E ele, Natanael, não falou.
Mas sua respiração era salmo.
E seu gozo, quando veio,
santificou os grãos do chão,
como se toda colheita futura nascesse daquele instante.

Não foi pecado. Foi revelação.
A beleza da carne negra em sua forma ereta
é mais pura que o ouro dos templos
e mais alta que o canto dos que nunca tocaram o chão com a boca.
Ali, descobri que Deus mora onde o suor encontra a língua.

E nunca mais o vi.
Mas todas as manhãs, quando o café esquenta,
sinto na língua a memória de Natanael.
Não como lembrança —
mas como fé.

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