domingo, 1 de junho de 2025

A Visita da Solidão

 A Visita da Solidão

(poema de humor negro)


Numa casa fria, no fim da viela,
Vivendo entre livros, poeira e vela,
Morava um homem de olhar sem cor,
Chamado Elias, um pálido autor.

Não tinha amigos, nem cão, nem vizinhos,
Só conversava com seus pergaminhos.
Mas a noite é longa, o tempo é traiçoeiro —
E até mesmo o silêncio torna-se parceiro.

“Solidão”, disse um dia, “és cruel demais.
Vem, senta comigo, me conta algo mais.”
E ela veio, do escuro, sem um som sequer,
Envolta em véus, sem rosto, sem mulher.

“Chamaste-me, Elias?” — sussurrou no ar.
“Pois cá estou contigo, pronta a escutar.”
Ele riu, sem saber se era vinho ou loucura,
Mas falou com fervor, com ternura e doçura.

A Solidão assentiu, e ficou por ali,
Sentada ao seu lado, como um anjo por um triz.
Tocava-lhe o ombro, beijava-lhe a testa,
E à noite escrevia em sua alma uma festa.

Mas ela era ciumenta, a pálida dama,
E queimou suas cartas, seus livros, sua cama.
“Só eu posso ouvir-te”, dizia a Sombria,
“Mais ninguém terá parte na tua agonia.”

Elias tentou fugir, tentar esquecer,
Mas já era tarde pra retroceder.
A Solidão, agora, tinha corpo e vontade,
E dizia "te amo" com a voz da saudade.

Hoje, se passas por lá, por azar ou razão,
Escutas dois risos — não um, mas em união.
Elias e ela, sentados no chão,
Jogando xadrez com a própria sanidade em vão.

Moral? Se há uma, talvez seja essa lição:
Nunca converse demais com a Solidão.
Pois se ela responde, se ergue do pó...
Ela fica. Ela gosta. Ela nunca está só.

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