domingo, 1 de junho de 2025

A Idade de Sobreviver


Ele mentiu para viver.


Quando o soldado apontou para ele e perguntou, com a brutalidade prática de quem fatiava vidas como quem corta carne, quantos anos ele tinha, respondeu: “Dezesseis.” Tinha quatorze. Dois anos de diferença — que naquele lugar equivalia à eternidade.


Foi assim que ele sobreviveu a Auschwitz.


Não houve heroísmo. Não houve trilha sonora. Apenas o instinto de mentir rápido, como quem tenta escapar de um cão raivoso. Depois disso, vieram os trabalhos forçados, a fome que parecia uma segunda pele, a neve entrando pelas costelas. Mas ele ainda respirava. Isso já era milagre suficiente para não ser comemorado.


Quando o campo foi libertado em 1945, ele tinha o corpo de um velho e a alma de um cético. Não acreditava em nada, nem em Deus, nem em política, nem no próprio nome — que soava estrangeiro até para seus próprios ouvidos. Arranjaram-lhe um trabalho como operário numa fábrica, martelando chapas de aço como quem tentava pregar o silêncio no passado. Funcionou por um tempo.


Mas a língua — sempre ela — o chamava. Começou a escrever. Primeiro pequenos artigos, depois resenhas, depois traduções. Trouxe Nietzsche para o húngaro, e o povo achou que ele estava tentando enlouquecer. Trouxe Freud, e disseram que era pornografia intelectual. Trouxe Wittgenstein, e aí ninguém entendeu nada, o que foi um sucesso. Por fim, traduziu Elias Canetti, que ele dizia ser o mais próximo que chegou de ouvir uma sinagoga feita de palavras.


Nunca foi exatamente feliz, mas em certos dias fingia bem. Casou, separou, tentou casar de novo. O Parkinson veio como um corretor de provas: tremia sua caligrafia e riscava suas palavras. A depressão, velha conhecida, voltava sempre que ele pensava ter encontrado algum sentido. Mas ele não desistia. Dizia: “Sentido é luxo. Sobreviver é necessidade.”


Em sua mesa de trabalho havia uma foto antiga: ele, adolescente, antes de Auschwitz. Olhos grandes demais para um rosto tão magro. Ninguém acreditava que aquela criança fora capaz de mentir com tamanha precisão. “Dezesseis.” Ele dizia que foi sua melhor tradução — traduziu sua infância para a idade adulta em uma palavra só.


No fim da vida, já com os movimentos encurtados e as frases demoradas, escreveu uma última crônica. Nela, contava a história de um menino que, ao ser perguntado sua idade por um anjo da morte, respondeu: “Tenho o tempo que me resta.” O anjo, confuso, não soube para onde mandá-lo — e o menino escapou do céu e do inferno.


Talvez esse menino fosse ele. Talvez todos nós sejamos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário