Era uma terça-feira, o que já bastaria para colocar Leonard K. Blumenfeld em estado de alerta. Terça-feira era o dia em que sua terapeuta mais bocejava durante as sessões. Ele atribuía isso ao seu signo — virgem com ascendente em pânico.
Leonard estava tomando seu café orgânico descafeinado, com leite de amêndoas emocionalmente equilibradas, quando um homem de túnica bege e sandálias apareceu na cafeteria e anunciou, com a voz calma de quem pede pão integral:
“Você será esfaqueado.”
Leonard olhou para ele, olhou para o barista (que estava desenhando uma folha de maconha na espuma do cappuccino de alguém), e depois voltou para o profeta.
“Com licença?” disse ele, tirando os óculos para polir com o canto da camisa, embora estivessem limpos.
“Uma facada. Breve. Violenta. Nas costas,” disse o homem. “Mas, não tema. Será transformadora.”
“Transformadora?” Leonard arqueou uma sobrancelha. “Você sabe o que é transformador? Terapia cognitivo-comportamental. Ou Prozac. Facada, não.”
“É o destino,” disse o profeta, com uma serenidade que Leonard achou altamente passivo-agressiva. “Eu apenas entrego a mensagem.”
Leonard riu, mais para si mesmo do que para o profeta. Aquilo era Nova York, afinal. Se ele ganhasse um dólar por cada previsão de morte que escutou no metrô, já teria um duplex no Upper West Side e duas hipocondrias a mais.
Ainda assim, durante os dias seguintes, Leonard começou a andar com um espelho preso às costas com fita adesiva. Evitava aglomerações. Trocou o corte de cabelo com medo de que o antigo destacasse muito a nuca. Ele desconfiava de garçons, padres, professores de ioga e ex-namoradas com contas emocionais pendentes.
Doze dias depois, numa tarde ensolarada no Central Park, Leonard sentiu-se finalmente livre daquele medo ridículo. Estava lendo um livro sobre estoicismo estoicamente, quando sentiu um cutucão no ombro.
Era o profeta.
Leonard bufou. “De novo você? Ainda com essa história?”
“Sim,” disse o homem, sorrindo. “Está na hora.”
“Na hora de você procurar ajuda profissional, talvez. Eu, por outro lado, estou muito bem, obrigado. Inclusive, estou praticando o desapego.”
“Isso vai ajudar,” disse o homem. E então, com um movimento elegante, quase poético, puxou uma pequena faca da túnica e cravou-a nas costas de Leonard.
Leonard, estupefato, caiu de joelhos. “Você?!”
“Claro,” respondeu o profeta, com um suspiro. “Autoprofecia é tendência agora. Reduz a margem de erro.”
“Mas... por quê?” balbuciou Leonard, segurando o lado esquerdo das costelas, o que não adiantava de nada.
“Você duvidou. E o universo odeia céticos.”
E então o profeta desapareceu, como desaparecem os bons argumentos: lentamente e com um leve cheiro de incenso.
Leonard sobreviveu. Claro. Virou palestrante motivacional. A palestra se chamava “Como Levar uma Facada e Crescer com Isso”. Foi um sucesso entre empresários, coachs e atores secundários.
Mas ele ainda sentava desconfiado em cadeiras públicas. E toda terça-feira, religiosamente, sentia uma pontada nas costas. Não de dor. De ironia.
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