sábado, 28 de fevereiro de 2026

Soneto do Vaso Branco

Aos norte-americanos e seu ministro da saúde que cheirava cocaína no vaso sanitário


No norte ergueram tronos de barulho,
feitos de ouro, câmeras e vento;
um rei de gravata grita ao mundo orgulhoso
como se o eco fosse argumento.

Ao lado, um profeta de jaleco estranho
fareja verdades no fundo do nada,
inclina-se ao vaso — trono mais tamanho —
buscando ciência na espuma usada.

Ó pátria que sonha em aço e bandeira,
que vende futuro em tom publicitário,
como pode a razão dormir tão ligeira

enquanto o poder faz teatro sanitário?
Ah, mundo — tua história às vezes assusta:
há impérios que caem… escorregando na própria farsa.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Viva ao Capitalismo

 

Nota sobre a Obra:

Este antipoema visual joga com a ironia e a simplicidade. A colher, um instrumento de alimentação, torna-se um símbolo da busca pela justiça social. O prato vazio representa a fome e a desigualdade geradas pelo sistema capitalista. O aviso "Use com Cuidado Capitalistas" é um chamado à reflexão e à responsabilidade, sugerindo que a ganância e a exploração podem ter consequências devastadoras para a sociedade e para o planeta.

MANIFESTO DE UM APAIXONADO PELA CIDADE DAS ANDORINHAS (Ou o que restou delas)

Antipoema de Amor a Campinas


Senhoras e senhores:

Não esperem que eu fale de flores

ou que compare o sol de Campinas a um disco de ouro.

O sol aqui não é de ouro,

é um maçarico ligado no máximo em plena Barão de Jaguara

que derrete o asfalto e o juízo dos passantes.


Estou apaixonado?

Sim, admito, sou esse idiota.

Mas não me venham com liras.

Meu amor por Campinas tem cheiro de óleo diesel

e o som de um ônibus da linha 1.21 freando no seco.

Eu amo esta cidade como se ama uma tia solteirona

que fala alto, usa perfume barato

e tem um passado meio obscuro no Cambuí.

Amo o Balão do Castelo

— aquela roleta-russa de metal e fumaça —

onde os motoristas jogam a vida no bicho a cada curva.

Vejam bem a beleza do Terminal Central:

Aquele caos geométrico,

aquela sinfonia de gritos de vendedores de chip

e o cheiro de pão de queijo que sobrevive a qualquer bomba atômica.

Se isso não é o Jardim do Éden,

então o Éden é um lugar muito chato.

Dizem que as andorinhas sumiram.

Mentira!

Elas apenas trocaram as penas por jaquetas de couro

e agora trabalham como entregadores de aplicativo

subindo e descendo as ladeiras da Francisco Glicério.

Eu caminho pelo Taquaral

e sinto um desejo incontrolável de abraçar a Caravela.

Uma réplica de concreto que não navega,

num lago onde os peixes são filósofos céticos.

Isso é poesia, caramba!

O resto é literatura de cartório.

Campinas, minha velha:

Você é feia, é quente, o trânsito é um inferno

e ninguém sabe direito onde termina o seu centro.

Mas eu te amo

com o desespero de um detetive que perdeu a pista,

ou de um poeta que esqueceu o próprio nome

na fila do bandejão da Unicamp.

Podem ficar com Paris,

podem levar Veneza num pote de geleia.

Eu fico aqui,

tomando um suco de milho no meio do nada,

esperando a chuva de granizo que nunca vem,

terrivelmente vivo,

terrivelmente campineiro.


Nota do Antipoeta: O autor não se responsabiliza por pneus furados em buracos nem por insolações adquiridas no Largo do Rosário.

DETETIVES SELVAGENS NO LARGO DO ROSÁRIO

Eu andava por Campinas como quem anda no avesso de um espelho quebrado.

Não havia café nítido, apenas o rastro do conhaque barato

e a promessa de uma chuva que nunca limpava a alma das calçadas.

            A cidade não era feita de concretos, mas de uma névoa espessa,

um catafalco invisível onde os vivos e os mortos permutavam segredos

sem importância, sob a luz doentia dos postes da Glicério.


Eu os via passar.

Brasileiros que não eram brasileiros, mas simulacros luminosos,

fantasmas que roubavam o tempo das repartições públicas

e o gastavam mastigando com jambo envenenado nas sombras do Taquaral.


Eram todos detetives, eu sabia.

Detetives sem distintivo, sem caso, sem pista,

investigando a própria aniquilação nos banheiros da Estação Cultura,

procurando o manuscrito perdido de um poeta que morreu de tuberculose

antes de aprender a rimar saudade com saco de lixo.


Nas esquinas mais escuras, perto da Catedral,

elas montavam guarda. Putas travestis com perucas de neon

e olhos que já tinham visto o fim do mundo três vezes antes do amanhecer.


Eram as rainhas daquele império de sucata,

suas vozes roucas eram o único hino nacional que eu reconhecia,

um canto de guerra e de derrota, misturado com o cheiro de diesel

e perfume vagabundo importado do Paraguai.

Elas me olhavam e sorriam, um sorriso de lâmina,

sabendo que eu também era um deles, um fugitivo

da literatura oficial, um desertor da realidade burguesa.


E ali, no meio daquele naufrágio coletivo,

na rotatória do balão do Castelo onde os carros giravam como bêbados,

eu me sentia vivo.


Terrivelmente vivo, como um rato que sobrevive à dedetização

ou como um poema que se recusa a ser queimado.

Era uma vitalidade obscena, visceral, uma febre que me consumia

e me suspendia acima do abismo da Barão de Jaguara.


Campinas era a minha pista de dança e o meu matadouro,

e eu continuava andando, míope e obstinado,

entre fantasmas e detetives, sob o céu de chumbo que sabe a cobre.

Balada de um perro triste

 deixar que o

rosto

apagado no

muro


chore ou

lata de

luar

cerveja vá


esses gritos

selvagens

e essas

chamadas telefônicas

A CICATRIZ E O JAMBO NO CATAFALCO DE NÉVOA

 Cenário: Uma ilha imaginária chamada Catafalco de Névoa, no Pacífico Sul, onde as marés trazem peixes com olhos humanos e o vento sussurra segredos em dialetos esquecidos. 

Chove há sete anos, uma chuva fina que faz subir um cheiro de cobre.


Personagens:

Kan : Um estrangeiro obsessivo, marcado por uma culpa antiga, que estuda a linguagem dos pássaros mudos da ilha.

Elena : Uma nativa cuja beleza é tão excessiva que dizem que as flores murcham de inveja à sua passagem. Ela é descrita na ilha como tendo o fogo sagrado nas entranhas.


O Diálogo

Elena: (Ela está sentada na raiz de uma figueira imensa que sangra uma seiva violeta. Ela mastiga um jambo com dentes que parecem pérolas cultivadas na dor). Você passa tempo demais olhando para o céu, estrangeiro. Tem medo que ele caia e esmague essa sua cabeça cheia de fantasmas?


Kan: (Ele não a olha diretamente. Ele examina um ferimento circular na palma de sua mão esquerda, que nunca cicatriza). O céu é apenas uma membrana, Elena. O que me assusta é o silêncio que há por trás dele. E o fato de que seu hálito de jambo consegue penetrá-lo.


Elena: (Ela ri, e o som faz com que os peixes-voadores saltem do mar em formação de ataque). O silêncio é bom. É quando meu corpo fala mais alto. Você não ouve? Ele está gritando agora.


Kan: (Uma tensão percorre sua espinha, uma dor familiar e existencial). Eu ouço. É uma ressonância terrível. Como o som de um osso se quebrando dentro da carne. Você carrega uma violência nítida em cada gesto, Elena.


Elena: (Ela se levanta e caminha em direção a ele. A chuva parece desviar de seu corpo). Não é violência, é urgência. Nesta ilha, Kan, nós não temos tempo para a melancolia. As coisas nascem, queimam e morrem rápido demais. (Ela para a centímetros dele. Kan sente o calor dela, que cheira a terra molhada e a jasmim noturno). Sua pele é tão pálida. Parece papel de arroz que nunca foi escrito.


Kan: (Ele finalmente levanta os olhos. Há uma luta neles, entre o desejo e o pavor da aniquilação do eu). Escrever nela seria um ato de profanação. Você quer deixar suas marcas em mim, não é? Como uma colonizadora que finca uma bandeira em território sagrado.


Elena: (O olhar dela é de uma voracidade mítica. Ela toca o ferimento na mão dele com a ponta da língua). Eu quero que você se lembre que está vivo. Mesmo que isso signifique que você tenha que morrer um pouco para descobrir. Sua dor é tão bonita, Kan. É uma pena que você a use como escudo.


Kan: (O toque dela envia um choque eletromagnético através dele. Ele sente a fronteira de sua identidade dissolvendo-se). Não é um escudo. É o que eu sou. Mas quando você me olha assim... eu sinto como se o Catafalco de Névoa inteiro estivesse prestes a afundar no meu estômago.


Elena: (Ela sussurra no ouvido dele, e o vento ao redor deles para, submisso). Então deixe afundar. Nós dois sabemos que fomos desenhados para esta catástrofe desde o primeiro dia da criação do mundo.



palácio

  à garoa, ou mesmo à neve,

 que cai durante o outono

 e o inverno 

beleza boa




Oceano

 Os genitais 

pães recheados com geleia

uma honraria

nas águas

da vida

o amor é assim

Metafora

 pores do sol, outono ou queda de flores de cerejeira

                                               sugerem a transitoriedade da vida.

Pequeno agama medieval

 Um monge sou nessa idade eterna,

    e sim, dou, dou as boas-vindas a mais um ano.

E devo tudo – tudo – à esse  Som de Uma Só Mão Eterna.

Ficarei com você até o fim

 Apontar diretamente ao céu

 para a luz verdadeira do homem, 

ver a sua natureza e tornar-se um buda iluminado.

Momento zen

 Jovens, 

se vocês não querem morrer,

morram agora. Uma vez mortos, 

vocês nunca mais morrerão.

A sopra uma pequena tempestade

 em uma viagem tranquila

 meus sonhos vagam 

por campos secos de milho

Breve tanka

 De mãos vazias entrei no mundo

Descalço, deixo-o.

Minha vinda, minha ida — acasos

Dois acontecimentos simples

Que se completam.

Realista de um Hobbit

para tolkien

 

...alguém que quer apenas viver sua vida,

                   comer bem e 

ser deixado em paz.

...

Noite fria

 esta noite

o céu estrelado

é frio e a

melancolia

noite vai adentro


esse vento de 

brisa é

o tédio do

nosso nomade amor


chove lá fora

casa fechada a brisa

fria o frio chuva

Despedida emocional

 

Enquanto me despedi de você,
 o vento solitário do outono 
sopra atrás de mim ruídoso e frio.


dia de frio

    sensação - 

olhado à estrela

lua branca

minareti do céu

   benção gelada

em adamantina minha cidade natal

 os túmulos mudos

a cidade recorda

as pessoas muros

           - nada mais se

                         vê

Recordação

 nasce talvez

a beleza nela

-prostituta negra-

sereia escura que

   toquei

com as mãos

na cidade

                    nova

O tapete

(prostituta negra) 


a cor dela

(mas essa noite

   passará de novo, não é

?

se expande

tapete

o tapete

do teu corpo negro

NEGRA

seios duros que chupei

lisos

                          só para mirá-los.

uma voz épica e metafísica

para jorge de lima


 folclórica demais

pouco sofisticada

assim sou com

coágulos de sol

tombando a água

a rã a saltar: você

diz que é pior não

amar e eu amo você

sem me amar 

à religião e às instituições.


sentimento do mundo

 seca e essencial voz

pétala no meio do campo

a flor até a flor 

palavra nua 

Milagres

 em profundidade

   amor

amar

   amaram

à memória

retorno.

Meus poemas

 meus poemas

eu sinto essa indígenas

lembranças que sou

para você amor

amar é o retorno do

que vou!

O cotidiano do amor

 a escadinava antiga

é o porto dessa

imensa américa latina


leia para mim

os seus beijos

excelentes e 

seletivos


ah, sorte cristalina

esse barroco cotidiano

é demais para as

minhas retinas.

Porto


A chuva
ao tombar
cai.

Olho —

longe,
as folhas
serenas.

Trovões:
ecos
sem rosto.

Um cavaleiro islandês
dorme
no tempo.

Eu,
peito brasileiro,
vejo o porto.

Bela visão:

adormecer
em paz
junto à fogueira.

Porto na Chuva


A chuva, ao tombar, cai duas vezes:
uma no mundo, outra na memória.
Eu a observo como quem decifra
um texto antigo escrito em água.

Vejo a serenidade das folhas,

suspensas num tempo sem urgência,
enquanto ao longe os trovões
ensaiam a linguagem dos deuses extintos.

Há um cavaleiro islandês que dorme —
não sei se numa tenda, num sonho,
ou numa saga que ainda não foi contada.
Seu sono pertence ao mesmo labirinto
onde repousam todas as histórias.

Eu, de peito brasileiro,
olho o porto como quem contempla um destino:
barcos são apenas metáforas do adeus,
e cada cais é uma pergunta sem resposta.

Que bela visão é adormecer assim:
com a fogueira em paz,
como se o fogo, a chuva e o homem
fossem, no fim,
um único e antigo pensamento do mundo.

Descanso Cotidiano

para cecília meirelles 


As ilhas, deixam que eu escreva,

e paro de pensar demais.


O mundo se recolhe nas margens,

e minha alma se desfaz.

Ah, viajante —

ouve a chuva da noite cair devagar,

como dedos leves

apagando pegadas do pensamento.

Há uma fogueira, brasa viva,

respirando em silêncio vermelho;

e dentro da pequena caverna

tecida de folhas e sombras,

um guerreiro adormece

com a espada flamejante ao lado.

Tudo repousa.

 

Até o medo se aquieta,
como animal cansado
de fugir de si mesmo.

Pois a mente pode ser um labirinto
de corredores intermináveis —
mas o coração,
em sua calma antiga,
sempre sabe o caminho.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Poema:

 trans-migração


DA

      VELHA

            A

              L

              E

              M

              A

              N

              H

              Ã


        A

      T

    É


                        A


      Í      N      D      I      A

       ( i ) ( n ) ( f ) ( i ) ( n ) ( i ) ( t ) ( a )


    V

      A

        M

          O

            S

              . . .

Panteísmo

 [erótico


mariposas que gemem

sob a luz dos carros

quando diriges melhor

elas quando lhe lambem

o falo


oh mariposas branquinhas

que gemem muito

sob as luzes dos carros


...]

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Avante!

             Falar a língua de todos 

Unir o camponês russo ao filósofo chinês

Substituir a guerra pela matemática da paz.

O Soldado que Voltou com a Areia nos Olhos



Quando o soldado paulista voltou da Guerra de Canudos, ninguém percebeu de imediato que algo nele tinha quebrado. Por fora, continuava o mesmo homem magro, de bigode ralo e postura orgulhosa, como se ainda marchasse dentro de um uniforme invisível.

Mas por dentro, carregava um silêncio cheio de vozes.

Ele não falava sobre o que tinha visto no sertão. Não falava das casas queimadas, das mulheres correndo com crianças no colo, dos corpos pequenos demais para serem chamados de inimigos. O que mais o perseguia não era o barulho dos tiros, mas o silêncio depois deles — aquele silêncio seco, pesado, que parecia dizer que nada daquilo tinha qualquer sentido.

Às vezes, à noite, ele sentia gosto de poeira na boca, mesmo estando longe do sertão.

E acordava com a impressão de que ainda estava pisando sobre ossos.


Quando chegou em casa, encontrou a mulher sentada à mesa com outro homem. Não havia escândalo, nem gritos. Os dois conversavam baixo, como se já esperassem por ele.

O soldado ficou parado na porta por muito tempo.

Pensou em matá-la.

Não como impulso — mas como uma ideia fria, lógica, quase administrativa, como se fosse apenas mais um gesto inevitável do mundo.

Mas então percebeu algo estranho: não sentia raiva.

Sentia apenas cansaço.

Olhou para os dois e disse, com uma calma que assustou mais do que qualquer fúria:

— Eu vi gente morrer por causa de palavras que ninguém entendia. Honra. Pátria. Fé. Agora volto e descubro que casamento também é uma dessas palavras.

A mulher chorou. O outro homem tentou falar, mas não encontrou voz.

O soldado continuou:

— Talvez tudo isso seja apenas um acordo inventado por pessoas com medo de ficarem sozinhas.

Ele ficou pensando por um momento, como se escutasse alguma coisa distante.

— E no fim, morremos do mesmo jeito.

Então pegou apenas um chapéu e saiu.

Sem brigar. Sem olhar para trás.


Vagou por meses. Trabalhava onde podia, dormia pouco, falava menos ainda. Às vezes sentia que sua vida tinha se tornado um sonho mal contado, daqueles em que os acontecimentos não têm ligação entre si.

Um dia decidiu ir para Rio de Janeiro.

Não sabia exatamente por quê. Apenas sentiu que precisava ir para um lugar onde o mar existisse — porque o mar, pensava, era a única coisa grande o suficiente para engolir as lembranças.

Na véspera da viagem, uma cigana o abordou na rua.

Ela não pediu dinheiro. Não pediu nada.

Apenas segurou sua mão e disse:

— Você carrega mortos nos olhos.

Ele tentou puxar a mão, mas ela apertou mais forte.

— E ainda vai carregar mais. Há um vento estranho soprando no sertão. Uma revolta vai nascer em um lugar chamado Princesa. Sangue de novo. Sempre sangue.

Ele não respondeu.

Mas, pela primeira vez desde a guerra, sentiu medo — não do futuro, mas da repetição.

A cigana soltou sua mão e sorriu, como quem conta uma piada triste.

— A vida não tem sentido, soldado. Mas insiste em continuar.

Na manhã seguinte, ele caminhava orgulhoso pela rua, levando sua pequena mala, convencido de que finalmente estava começando uma nova vida.

Foi então que sentiu o impacto.

Um tiro pelas costas.

Ele caiu sem entender.

Enquanto o mundo escurecia, teve uma última sensação estranha: não dor, nem revolta — apenas a impressão de que tudo aquilo era absurdamente familiar.

Como se estivesse voltando, outra vez, para a mesma poeira do sertão.

E, por um instante antes do fim, pensou:

Talvez a vida seja só isso — um caminho que sempre retorna ao mesmo vazio, não importa para onde a gente fuja.




Vazio em Dia de Chuva - conto

    A chuva começou antes do amanhecer e não parou. Não era uma tempestade violenta, mas uma persistência — uma queda contínua, fina, como se o céu estivesse cansado e, em vez de gritar, tivesse decidido apenas desistir lentamente.

O pintor ficou sentado diante da tela em branco.

Durante horas.

O ateliê cheirava a óleo, madeira úmida e silêncio. A água escorria pela janela em trilhas irregulares, distorcendo a cidade lá fora, como se o mundo estivesse sendo apagado.

Ele tentou segurar o pincel.

Mas sua mão não se movia.

Sentia, com uma clareza quase cruel, que algo dentro dele havia terminado. Não era apenas falta de inspiração — era como se o impulso fundamental que o ligava à pintura tivesse sido retirado, deixando apenas uma forma vazia.

Pensou:

Talvez minha vida tenha sido só isso — um período provisório entre duas ausências.

A ideia não veio como drama, mas como constatação. E essa calma o assustou mais do que qualquer desespero.

Ele lembrou do tempo em que pintar era inevitável, como respirar. Quando cores surgiam dentro dele antes mesmo que olhasse para o mundo. Agora, porém, tudo parecia distante, como uma memória que não lhe pertencia mais.

A chuva continuava.

Ele percebeu que estava esperando algo — não sabia o quê. Talvez um sinal externo, algo que justificasse continuar.

Mas nada acontecia.

Até que, quase sem notar, a luz mudou.

Não foi súbito. Foi um deslocamento gradual. O cinza da janela começou a clarear de maneira estranha, não como quando o sol simplesmente aparece, mas como se estivesse tentando atravessar algo muito espesso.

Ele se levantou devagar.

Por trás das nuvens, o sol não surgia como forma — não havia disco, nem brilho direto. Era apenas uma difusão luminosa, um campo de claridade irregular, que fazia as gotas na vidraça brilharem em camadas.

E, naquele instante, ele viu algo que nunca tinha visto:

A chuva não era apenas queda.

Era também luz.

Cada fio de água carregava um reflexo diferente, como se milhares de linhas invisíveis estivessem ligando o céu à terra, não em tristeza, mas em uma espécie de insistência silenciosa.

Sentiu o peito apertar.

Não de alegria.

Mas de reconhecimento.

Como se compreendesse, finalmente, que o vazio que o paralisava não era ausência — era apenas um lugar ainda não nomeado.

Ele tentou respirar fundo.

Não conseguiu.

As lágrimas vieram antes.

Ele chorou ali mesmo, diante da janela, sem soluços, apenas deixando a água escorrer pelo rosto, misturando-se à luz que atravessava a chuva.

Atrás dele, a tela continuava em branco.

Mas, pela primeira vez naquele dia, o branco já não parecia o fim.



O poeta (conto)

 Ele saiu para caminhar porque não conseguia escrever.

A página em branco sobre a mesa parecia observá-lo com uma espécie de reprovação silenciosa, como se dissesse: você não tem nada verdadeiro a dizer.

Era noite em Campinas, e o ar carregava aquele cheiro indefinido de poeira, gasolina e árvores cansadas. O poeta caminhava sem destino, pensando que talvez a literatura fosse apenas uma tentativa elegante de organizar a solidão.

Foi então que a viu.

Ela estava sob a luz de um poste, imóvel, como se tivesse sido colocada ali por algum erro do mundo. Era bela de um modo inesperado — não frágil, mas firme, com um olhar que parecia atravessar as pessoas antes mesmo que elas percebessem.


— Você parece perdido — ela disse, com um sorriso leve.

Ele respondeu algo confuso. Disse que pensava em escrever um conto, mas não sabia sobre o quê. Disse que às vezes achava que sua vida era pequena demais para virar literatura.

Ela riu, não com deboche, mas como quem conhece uma verdade antiga.

— A vida nunca é pequena — disse. — Só é mal escutada.

Então, sem aviso, ela se aproximou e o beijou.

Não foi um beijo longo. Foi rápido, quente, inesperado — como um pensamento que surge antes de desaparecer.

Ele ficou parado depois, sentindo o coração bater com uma estranha calma, como se algo dentro dele tivesse sido reposicionado.

— Escreva sobre isso — ela disse. — Sobre o momento em que você percebe que o mundo é maior do que o seu medo.

E foi embora caminhando devagar, dissolvendo-se na noite como uma lembrança que ainda não existe.

O poeta voltou para casa com uma sensação rara: a de que sua vida, por um instante, havia tocado algo verdadeiro.

Sentou-se diante da página em branco.

E, antes de começar a escrever, teve um pensamento súbito, quase infantil:

Que um dia ganharia o Nobel.

Não por fama. Nem por glória.

Mas porque, naquele momento, acreditava que escrever era apenas isto —

tentar preservar, com palavras, um beijo inesperado no meio da noite.

Quando acordou, a manhã já entrava pela janela.

A página continuava em branco.

E ele não sabia dizer se tinha realmente saído para caminhar…

ou se tudo havia sido apenas um sonho que ainda não terminara.


O bar (conto)



Quando ele comprou o bar, não contou à esposa de imediato.
Disse apenas que havia adquirido “um negócio pequeno”, algo para garantir o futuro, algo que cheirasse a estabilidade. Mas, quando ela atravessou a porta pela primeira vez, sentiu imediatamente uma espécie de mal-estar — não medo ainda, apenas um peso no peito, como se o ar fosse espesso demais para respirar.

O bar ficava numa rua antiga, estreita, onde o sol chegava tarde e ia embora cedo. As paredes eram de um verde escuro já descascado, e o piso de madeira rangia mesmo quando ninguém andava sobre ele.

— Não gosto deste lugar — ela disse.
— É só velho — ele respondeu. — Lugares velhos sempre parecem tristes.

Mas naquela mesma noite, quando fechavam as portas, ouviram o primeiro grito.

Não foi alto. Foi abafado, distante, como se viesse de dentro de uma parede.
Ele congelou com a chave ainda na mão. Ela segurou o braço dele com força.

— Você ouviu?
— Deve ter sido na rua.

Mas não havia ninguém lá fora.

Os dias passaram, e os gritos continuaram. Às vezes eram choros. Às vezes, vozes confusas, como discussões que se sobrepunham. Outras vezes, apenas um som profundo, quase animal, que fazia as garrafas vibrarem no balcão.

Eles tentaram ignorar.

Ele dizia que era o vento. Depois, os canos. Depois, o prédio antigo “assentando”.
Ela parou de discutir. Apenas observava. Seu silêncio era pior do que qualquer reclamação.

Ela começou a dormir mal. Ele também.

Certa madrugada, acordaram com um estrondo — como se algo tivesse caído no porão. Desceram juntos, com a lanterna tremendo na mão dele.

Não havia nada fora do lugar.

Mas o chão parecia… úmido.

Não molhado como água. Era uma umidade fria, espessa, que parecia subir pelas solas dos sapatos.

Ela disse apenas:

— Este lugar não quer a gente aqui.

Os clientes começaram a perceber também.

Alguns diziam ouvir sussurros.
Um homem jurou que alguém havia tocado seu ombro quando estava sozinho no banheiro.
Uma mulher saiu correndo, pálida, dizendo que tinha visto “rostos” refletidos no espelho do bar.

O movimento caiu.

Ele insistia em continuar.

Mas uma noite, enquanto fechavam, o maior grito de todos ecoou. Não um som distante — mas perto, tão perto que parecia ter saído do próprio chão.

Ela desabou chorando.

— Vamos vender — disse. — Por favor. Antes que a gente enlouqueça.

Ele não discutiu.

A venda foi rápida. O comprador era um homem idoso, de olhar estranho, que parecia saber exatamente o que estava adquirindo.

No dia da assinatura, o homem disse calmamente:

— Vocês não pesquisaram a história do terreno, não é?

Eles se entreolharam.

— Que história? — perguntou o marido.

O velho hesitou, como se escolhesse palavras que não ferissem demais.

— Antes do bar existir, isto era um terreno abandonado. E antes disso… — ele respirou fundo — era uma vala comum.

O silêncio ficou pesado.

— Durante décadas — continuou o homem — corpos eram enterrados aqui. Pessoas assassinadas. Crimes violentos. Ninguém reclamava. Era uma época assim.

A esposa sentiu o estômago afundar.

— Muitos dizem — ele completou — que certas mortes não encontram descanso. Principalmente quando ninguém as reconhece.

Eles nunca mais voltaram àquela rua.

Mas às vezes, anos depois, acordavam no meio da noite ao mesmo tempo.

Sem saber por quê.

E, por alguns segundos antes de despertar completamente, tinham a mesma sensação:

Como se, sob a casa onde dormiam, existisse um chão profundo… cheio de vozes tentando subir.

O Grito e a Flor

 Essa cor que pulsa, um som que vem da alma

É a história escrita em cada esquina, em cada calma

Um Grito Preso e Uma Flor Que Resiste!

O eterno Fio De Esperança que ainda Existe!

É O Agora E O Ancestral Na Mesma Canção!

NO MESMO CORAÇÃO, NA MESMA CANÇÃO!

Entre Rios e Mares

  Onde a matéria aprende a amar sem resistência, 

Num fluxo suave, a mais pura cadência. 

É quando o rio encontra o mar, sem questionar, 

E a própria vida ensina a arte de se entregar.

 Um laço eterno de ser, Onde amar é só acontecer.

















Onde a Matéria Aprende a Amar sem Resistência

 A supercondutividade é um segredo do silêncio,

um pacto invisível entre a matéria e a noite.
Nela, os fios deixam de sofrer,
como rios que finalmente encontram o mar
e já não lutam contra as pedras.

É um conjunto de propriedades físicas —
mas eu a sinto como um milagre lento:
a resistência elétrica desaparece
tal qual o cansaço do amor
quando dois corpos se entendem sem palavras.

E então os campos magnéticos são expulsos,
como exércitos derrotados por uma paz absoluta,
como se o mundo dissesse:
“aqui não entra a violência,
aqui tudo flui, puro, contínuo, infinito.”

Oh matéria que sonha em ser perfeita,
que por um instante toca o impossível —
ensina-nos também a desaparecer as resistências,
a deixar que o amor corra sem perda,
como corrente eterna
no coração secreto do universo.

Átomos divinos de Itanhaém

 da radiação de luz que

emana de sua bela nádega

irei escrever poemas

eternos


mas sem nome de estátua

O portão marinho

 voltei a ser eu mesmo

rapaz de bronze

duro erguido a cabeça

de bode para frente


e essas estátuas mortas

me rodeando


socorro


essa palavra é um mar de belezas

Diante do mar tranquilo

 para além do oceano

o que eu

poderia deixar

estampado

no meu peito colorido

se não o vento sem nome

as flechas do amor

e o horizonte que não chora

O navegar poético

    tenhos muitos poemas que não

escrevi

mensagens de uma garrafa que

nunca tocarão as águas frias

do mar

a praia

 a eslava chama

do gueto que amo

no seu céu na terra

no meu mar de gelo.

as rosas

 as rosas 

              são

as estrelas do

chão

Soneto do Lobo Guardião

Descanse, viajante — a noite é branda,

E as estrelas vigiam seu dormir;

O vento em ramos suaves se abranda,

Como quem teme o sonho ferir.

Seu lobo vela à margem do caminho,

Com olhos feitos brasas de lealdade;

Não rosna à sombra, nem teme o espinho,

Pois guarda mais que corpo: a verdade.

Há reinos que só o cansaço alcança,

Portais que se abrem quando a dor se rende;

E a fé, pequena chama da esperança,

Arde mais forte quando o mundo pende.

Assim repouse — sem temor, sem dor:

Quem dorme em confiança acorda em luz maior.

Peixuxa a morsa tenta vender o Polo Norte

 No salão gelado das marés esquecidas,

ergueu-se Peixuxa, a morsa inflada,

com dobras rangendo como portas antigas

e uma coroa torta de prata salgada.


— “Cidadãos do frio, escutem meu plano!

O Polo Norte será minha mansão!

Comprarei os ventos, o gelo, o oceano,

e despejarei ursos sem indenização!”


Seu bigode tremia em pomposa oratória,

feito cortinas velhas num teatro cruel;

prometia lucro, glória e vitória,

vendendo o próprio silêncio a granel.


“Pois o sol e o dia,” disse em delírio,

“vão virar a areia da doce melodia;

e se eu pudesse ver um porco com asas,

jamais faria tal filantropia.”


As focas cochichavam: “Que morsa indecente…”

Os icebergs riam com dentes de sal.

Mas Peixuxa prosseguiu, gordamente:

— “Expulsar ursos é meu ideal!”


Então o gelo rangeu como osso partido,

o vento soprou uma vaia polar —

e o próprio Polo, farto e ofendido,

rachou-se inteiro sob seu discursar.


Peixuxa caiu no buraco gelado,

rodopiando em pompa e desgraça:

virou apenas um eco inchado,

boiando… sem trono, sem plano, sem graça.


E até hoje no norte, em noites sombrias,

ouve-se um sopro grotesco e profundo:

é a morsa vendendo… em parcelas frias,

o nada mais caro do mundo.

A Morsa Peixuxa


Peixuxa, a morsa, em cartola e gravata,
Bengala de ouro, sorriso de banco,
Marchava dizendo: “Negócio se trata —
Compro ostrinhas hoje, pagamento em banco!”

Mamãe Ostra tremeu na pedra salina:
“Meus filhos não são ações na maré!”
Mas Peixuxa anotou numa grande rotina:
“Lucro primeiro, depois vê como é.”

Prometeu dividendos, bolhas e bônus,
Falou de progresso, mercado e expansão —
Enquanto as ostrinhas gritavam: “Que donos?!”

Mamãe deu-lhe um chute de revolução.
A morsa fugiu, causando um desatino:
Fez maremoto… e virou sushi do destino.

O Perigo da Magia

 ........o portão se

abre

nas mãos flácidas

o duro objeto

do amor se

faz

sonhei então com

duendes e fadas nuas.

O desejo

 a natureza é um porto

em que devemos mirar

a beleza e a eternidade

em um só olhar!

poema nuclear

 para kenzaburo oe 


o barulho da

água ecoa

- é a rã nuclear

a destruir a bela cidade

lágrimas

pó se encontram.

A escuridão

 Harmonia e aceitação tenho

No

Desequilíbrio do questionamento.

A condição humana e a história

me ferem de flechas o corpo.

Densa mulher que amo, 

detalhada, com a 

 natureza e o instante do beijo passado.

Música sentimental para Roma

 o universo

dança cósmica dela

aos olhos dela

roupa de corvo

corpo aveludado

nu nudeza crueza

cru é o amor que

tenho por esse

universo pálido.

pérola

 o veludo do mar

desuas           nádegas

rápidas

retornam ao

presente.

Paradoxo Emocional de Apollinaire

 a noite inteira perto dela:

quantos conflitos de sentimentos

internos

o passado é

uma sombra

mulheres que

se foram de mim

na noite de lua cheia

serei uma tumba

penetrando

no silêncio do teu gozo?

breve eternità

 Dall'illusione 

della consolazione, 

della disperazione

 e della morte,

 ecco la vita 

                              in Dio!

un messaggio arcaico di un uomo

 Dall'illusione della consolazione

Tempo, vita                   e morte!

il dolore*

 as dores você

sabe que eu

tive as minhas

ah prumo de

retidão esse

coração mamãe

sofreste sofro

sufoco por isso

entre a alegria

entre a dor

    o nada

    se explica.



*il dolore, o título desse poema em verso, é apenas uma pequena explicaçao do que a dor pode se tratar, ou seja, decidi usar a palavra em italiano para dar título a esses versos em português não só como uma homenagem breve e sintatica ao poeta giuseppe ungaretti, mas ao me valer do italiano, a língua mais musical e proxima do latim arcaico, quero que com isso expressar que "a dor em sí" não é fruto apenas do sofrimento, podemos sentir dor até mesmo no espelho da alegria.  

composição química

 

a escala

do universo

vou medir

com os limites

da régua

do meu amor.

PODEROSO DEUS

 ...ante o olhar profundo

e sábio de

DEUS

eis a minha alma

sinto--me..

..fascinado!..