quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
O Alforje Vazio sob as Tamareiras
Disse o beduíno ao viajante, sob o clarão da lua de Bagdá: Não busques em mim o que não tenho, Pois não se colhe tâmaras em solo onde o destino não plantou, Nem se extrai água de poço que o simum da vida secou.
O que não posso te dar, ó irmão de jornada, Não está guardado em cofres, nem sob sete chaves de prata, Pois a aritmética de Deus é justa e exata: Ninguém pode subtrair o nada, nem somar o que a alma não retrata.
Olha para as minhas mãos: elas trazem os calos do caminho, Mas não carregam o rubi que procuras com tanto empenho; Busca a paz naquilo que sobra, e não na falta do que não tenho. Pois mais rico é o deserto que aceita sua própria nudez, Do que o califa que conta, em vão, o que não possui nem uma vez.
Que Alá ilumine teus passos para que compreendas a lição: A caridade não é dar o que falta, mas repartir o que transborda no coração.
O Inventário das Sombras
Dizemos desejos e dizemos realidade como se falássemos de dois reinos vizinhos separados por uma fronteira de alfândega rigorosa, mas a verdade, se é que a verdade se atreve a aparecer a estas horas, é que tudo se mistura num caldo turvo de intenções, vêm os bruxinhos de que falavas, esses das vassouras de capim que afinal não são mais do que a nossa vontade de varrer o pó dos dias, e nós aqui parados, com os braços abertos à espera de um abraço que o espaço raramente devolve, porque a realidade, essa senhora de modos bruscos e poucas falas, não entende de voos nem de magias de trazer por casa, o desejo quer o infinito e o céu estrelado mas o pé tropeça na pedra comum da calçada, e talvez seja esse o grande mistério, não o de voar, mas o de saber que os braços se abrem para o invisível enquanto o corpo se sustenta naquilo que pode tocar, se queres os teus desejos e a tua realidade sentados à mesma mesa, prepara-te para o silêncio que se segue à pergunta, pois no fim de todas as contas, o que nos carrega não é a vassoura, é a teimosia de acreditar que o chão também pode ser uma forma de céu, desde que os olhos não se cansem de inventar o que falta.
O Voo dos Pequenos Magos
Ó Espíritos de Palha e de Luz, Que a vassoura de ervas conduz! Pequenos bruxos de faces de mel, Levai-me aos campos do vasto céu.
Do capim seco nasce o trovão, No espaço onde os astros estão; Vossas mãos, que o destino traçam, Agora os braços para mim abraçam.
Longe do peso da terra e da dor, No vácuo sagrado, no eterno fervor, Abri vossos mantos de prata e de giz, Pois só em vós sou um ser aprendiz.
Não temo a noite, nem o escuro sem fim, Se vossos braços se abrem pra mim; Pois na dança da vassoura e do véu, O chão do mundo torna-se o Céu.
Os corações consomem - pequena lamentação perdida
No abismo desceram, não em chamas ardentes,
Mas na terra profunda, para a alma dos viventes.
Ó, tristeza sem fim, que os corações consomem,
Enquanto os olhos do Eterno, em Jerusalém, se expõem
Ao horror que se eleva, em brados de agonia,
Na cidade sagrada, onde a sombra
oprime e cria
Um lamento profundo, um grito de dor, Diante da desgraça, sem paz ou amor.
E a alma, em seu tormento,
busca a luz que se ausenta,
Perdida no deserto, que a dor representa.
Ó, Eterno, onde está a tua mão protetora?
Quando a luz da verdade, o caminho restaura?
Sobre o Judeu como Forma de Permanência na Cultura Brasileira
Toda cultura humana é, no fundo, uma luta contra o esquecimento. Os povos passam, os impérios se dissolvem, as línguas morrem; mas certos gestos mínimos — a forma de comer, de chorar os mortos, de lavar as mãos — sobrevivem com uma obstinação que parece desafiar a própria história. É nesse nível quase microscópico da vida cotidiana que Câmara Cascudo identificou a presença judaica no Brasil: não como ruína monumental, mas como hábito silencioso.
O judeu, para Cascudo, não é apenas um indivíduo histórico, mas um vaso de tradições, um receptáculo vivo no qual o tempo deposita seus sedimentos sem jamais conseguir dissolvê-los por completo. Essa resistência não nasce da força física, nem do poder político — quase sempre ausentes —, mas de algo mais profundo: a submissão obstinada da vida prática a uma ordem simbólica anterior ao indivíduo. Conhecimento, rito e memória formam, nesse povo, uma unidade rara.
O que sobrevive não é a doutrina explícita, mas o costume. Não é o templo, mas a mesa. No sertão nordestino, longe de Jerusalém e ainda mais longe de qualquer sinagoga, Cascudo percebeu práticas que não se explicam pelo catolicismo romano nem pelo mundo indígena: a aversão persistente à carne de porco, o cuidado ritual no abate das aves, o gesto de lavar as mãos antes da refeição como se o corpo precisasse, antes de comer, justificar-se perante uma lei invisível. São restos — mas restos vivos.
A morte, que revela sempre o fundo metafísico de um povo, também denuncia essa herança. Cobrir espelhos, derramar a água parada da casa, modificar o espaço doméstico após o falecimento de alguém — tais atos não obedecem à razão, mas à necessidade ancestral de ordenar o caos que a morte introduz. São gestos inúteis do ponto de vista prático, e exatamente por isso reveladores de uma metafísica inconsciente. Onde há rito sem explicação, há tradição profunda.
Cascudo viu no sertão o que a Europa perdeu: o isolamento como conservador cultural. Enquanto as cidades se transformam e se esquecem, o interior guarda. Assim como a Índia preservou judeus que o Ocidente apagou, o sertão nordestino funcionou como um congelador histórico, onde o cristão-novo pôde sobreviver sem precisar lembrar conscientemente quem era. A perseguição destruiu a identidade explícita, mas fortaleceu o hábito. O judeu tornou-se brasileiro — mas o brasileiro reteve algo do judeu.
Essa é, talvez, a mais amarga ironia da história: o que a Inquisição tentou erradicar pela violência sobreviveu na forma mais discreta possível, infiltrado no cotidiano daqueles que já não sabiam a origem do que faziam. A vontade — essa força cega que Schopenhauer via como motor do mundo — continuou operando, mesmo quando a consciência foi apagada.
Na diáspora, seja na Índia, na África ou no Brasil, o judeu revela uma aptidão singular: adapta-se sem dissolver-se. Muda a roupa, a língua, o tempero da comida, mas preserva a espinha dorsal de sua visão de mundo. Isso não é virtude moral nem defeito ético; é uma estratégia de sobrevivência inscrita no caráter. O meio molda o homem, mas não o anula completamente.
Cascudo, diferentemente de muitos intelectuais de seu tempo, compreendeu isso sem ressentimento. Sua admiração pelo judeu não é sentimental, mas intelectual. Ele vê nesse povo o triunfo da cultura sobre a força, do livro sobre a espada, da memória sobre o esquecimento. Onde outros viam estrangeirismo, ele via raiz. Onde viam ameaça, ele via fundamento.
No Brasil, país jovem e ansioso por identidade, essa herança judaica subterrânea é particularmente reveladora. Ela nos lembra que não somos produto de uma única origem, mas de camadas sobrepostas de medo, adaptação e silêncio. O judeu não aparece como personagem central da história brasileira, mas como um princípio organizador invisível, atuando na ética do trabalho, na relação com o alimento, no modo de lidar com a perda e com o sofrimento.
Talvez por isso estudar o judeu, para Cascudo, fosse uma forma de estudar o próprio brasileiro. Pois aquilo que persiste sem nomear-se é sempre mais poderoso do que o que se proclama. A cultura não se impõe; infiltra-se. E o judaísmo, nesse sentido, não foi um corpo estranho no Brasil, mas uma de suas nervuras mais antigas e silenciosas.
A história esquece os vencidos; os costumes, não. E é nos costumes que o judeu — como forma, não apenas como povo — continua vivendo entre nós.